Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Guardando coisas



Sábado, 18.08.12

Será sempre cedo

Será sempre cedo!
Há anos , não muitos, que não me cruzava com o João, quadro superior destacado da empresa ultimava agora a partida para nova comissão agora num país da Ásia após ter vivenciado a experiência de trabalhar três anos em empresas no Brasil. Antes destas experiências já o trabalho na marinha lhe havia proporcionado conhecer muitas outras paragens. Fala com conhecimento de causa o João.
Não tardou que ,logo após os cumprimentos usuais, me provocasse entre sorrisos carregados de malandrice:
– Digam o que disserem aqui é que se está bem. Estejas onde estiveres, quer em termos de segurança quer em termos de calma aqui é que é bom. Não se passa nada, tiram o que quiserem a malta não faz nada, não dizem nada, é tudo na boa.
Seguro de que conhecia muito melhor que ele as diversas iniciativas que por cá se vão fazendo como forma de demonstrar a indignação o protesto e a exigência de uma novas politicas respondi tambem provocatóriamente:
– Somos um país de mansos não é João?
– È mesmo. Podes fazer o que quiseres que a malta não se chateia. Apertas, apertas e não se passa nada. Acredita ,não há sitio tão sossegado como este.
Volto a não concordar. Que muitos e muitos tardem em mostrar por actos o que exprimem nas conversas que um pouco por todo o lado se vão tendo é verdade ,mas que “a malta se chateia” também é verdade, como não poderia deixar de ser.
Chateiam-se e de que maneira os professores que vem 15 mil professores do quadro ficar sem aulas para dar enquanto as turmas crescem para 30 alunos e as médias das notas descem. E com este numero não se menciona os outros muitos milhares que por serem contratados ainda terão muitos menos hipóteses de leccionar.
Chateiam-se os enfermeiros a quem querem contratar por ultrajantes valores que não se pagavam sequer aos trabalhadores menos qualificados.
Chateiam-se os doentes que, para alem dos encerramentos que todos os dias acorrem ,ainda assistem ao definhar do serviço de oncologia do hospital do Barreiro enredado nas teias burocráticas que o impedem de repor rapidamente os médicos de que e que assistem à promoção de dois generais enquanto as deles estão congeladas há longos meses.
Chateiam-se os autarcas e fregueses com a perspectiva de extinção de centenas de freguesias de tal forma que 97 Assembleias Municipais e muitas mais Assembleias de Freguesia já deliberaram contra estas intenções governamentais. Muitas outras se seguirão certamente.
Chateiam-se os trabalhadores do sector automóvel que ,perante a quebra de 36% nas vendas , sabem das ameaças que pairam sobre o futuro de 2100 empresas do sector e sobre o emprego de 21000 dos seus postos de trabalho.
Chateiam-se os trabalhadores em geral com as alterações à legislação do trabalho que mais uma vez lhes aumenta os deveres e lhes diminui os rendimentos e direitos.
Chateiam-se os estudantes que se sentem obrigados a estudar durante dezena e meia de anos para conseguir qualificações que outros obtêm em escassos meses.
Chateiam-se os inquilinos com a perspectiva de despejos agora tremendamente facilitados com a promulgação pelo Presidente da Republica da nova lei dos arrendamentos.
Chateiam-se os alentejanos coma a anulação de um dos grandes empreendimentos previstos para o Alqueva, prenuncio do futuro que terão os restantes projectos. Muitos e muitos futuros são assim anulados naquela terra sofrida.
Em geral chateiam-se os portugueses que ,sabem e sentem estarem mais pobres, em nome de um futuro para o qual contribuem com um enorme sacrifício e que ainda assim não parece servir para nada já que se desconhece qualquer estratégia nacional que conduza ao crescimento de mais empresas, de mais postos de trabalho, de mais riqueza e de uma maior qualidade vida.
O destino dos projecto das minas de minério em Moncorvo e dois painéis solares em Abrantes aí estão para comprovar que não há qualquer perspectiva de desenvolvimento para o país mas tão só um caminho de sinistro retrocesso social, os trabalhadores despedidos do call center da Segurança Social em Castelo Branco são só alguns dos que agora sentem isso nas suas casas e famílias.
Veio o primeiro ministro agradecer a grande paciência dos portugueses. Outros , com mais ou menos responsabilidades ,surgem cada vez com maior frequência a dizer que os portugueses atingiram o limite do suportável prontamente desmentidos por instituições europeias como a OCDE que ainda exige mais recuos novamente na legislação laboral , novamente sobre os trabalhadores ,sempre os praticamente únicos pagantes desta crise que não criaram.
Milhares de familias, ficaram sem direito os seus abonos de familia, aos RSI, aos subsidios de desemprego.
Um numero imenso de portugueses ficou sem qualquer hipótese de viver condignamente, à mercê das ajudas que algumas instituições vão conseguindo ,e sabemos que com cada vez maior dificuldade.
Não tem razão meu amigo João. A malta chateia-se. A malta tem feito alguma coisa, não toda a malta, não tanta malta como se justifica e faz falta, mas todos os dias o protesto acontece e a inevitabilidade de que cada vez mais portugueses sintam a necessidade de agir, e não só de falar, tambem acontece todos os dias.
Um dia destes o João vai descobrir que o povo acordou ,e não será tarde, pois no dizer do poeta ” quando um povo acorda é sempre cedo”.

Autoria e outros dados (tags, etc)

por guerrilheiro às 07:29



Mais sobre mim

foto do autor


Pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Agosto 2012

D S T Q Q S S
1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031

Posts mais comentados