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Guardando coisas



Quinta-feira, 31.05.12

Portugal profundo

Portugal profundo

Nasceram ali e por ali ficaram, sobretudo em terras o mais longe do mar que o país permite. Enquanto muitos milhares ao longo dos anos buscaram sobrevivência noutros cantos do mundo eles arrostaram com os sacríficos de tratar as terras e delas extrair magras recompensas com que chegaram até hoje muitas décadas depois.
Em nomes deles e dizendo-se por eles alguns engordaram corpos e carteiras, ora prometendo benfeitorias ora jurando ir aproximar o interior do litoral. Nem uma coisa nem outra , vê-se hoje que não só nada cumpriram como em muitos casos ainda lhes minguaram o pouco que tinham. Foi o centro de saúde, que fechou, mais a escola que também lhe seguiu os passos, e maternidade onde já não nascem portugueses e os transportes que escasseiam quando os há. Até a freguesia que sempre conheceram e onde procuravam ajudas e soluções junto dos vizinhos que tão bem conhecem lhes querem extinguir.
Embrenhados no Portugal profundo ouvem palavras que mal reconhecem, potenciar ou racionalizar meios, agregar freguesias, eurobonds , e tantas ,tantas outras que soam como se fossem ditas nuns jeitos de linguagem próprios daqueles que manhosamente o que querem mesmo é que nada delas percebam.
Das maleitas que herdaram das vidas duras que arrostaram eles sabem, Das muitas artroses, das pedras nos rins, das calosidades com que as ferramentas lhes esculpiram as mãos, dos bicos de papagaio que os apontam para os caminhos quantas vezes sem alcatrão das partidas com que o coração lhes quer pregar eles sabem como ninguém.
E vão sabendo que cada vez mais os tostões a que chamam pensão já não lhes basta para a nem para o médico quando os há nem para os remédios que necessita para suportar mais uns dias e quantas vezes nem para o transporte que os leve ao hospital ou à farmácia.
A opção que tantas vezes tem de tomar não é agora ficar ou partir como quando eram jovens, mas escolher o que os pode manter vivos. E quantas vezes a alternativa se coloca entre o remédio e a comida ainda que escassa e fraca.
Quantos dos nossos mais idosos temos assim por esse Portugal, que a todos tanto nos deram , e que a agora tudo lhes tiram em nome duma economia que, sobretudo eles, em nada contribuiram para deteriorar tão gravemente?
Que país ingrato este que reserva aos mais deve um final de vida tão penosamente difícil e desonroso.
E depois de ficar clara falta de médicos, de transportes, de ajudas, de tudo ainda temos de assistir a um engravatado alcandorado a secretário de estado ir dizendo a muito custo que iria fazer circulares que explicassem aos interessados que não senhor que não tinham que pagar nada. Desde que provem claro está. E mesmo os doentes oncológicos não tinham que pagar nada para fazer algumas análises desde que estejam no historial da doença.
Continuamos a ter personagens para quem a economia se sobrepõe à vida e para quem não basta estar doente, ainda que seja oncológico tem de ter histórico e tem de provar.
Provar o que ? Não se vê pelas mãos calejadas, pelo corpo vergado pelos anos pelas rugas que mapeam a face como os ribeiros que nos rigores invernis sulcam as terras tão distantes e tão próximas onde sempre viveram.
Também eu ouvi o srº engravatado alcandorado a secretário de estado e tal como tantos dos nossos velhotes e doentes me questiono:
-Se é assim por que razão a criatura não fez as tais circulares há mais tempo? Porque esteve à espera que a televisão o fosse incomodar? Porque permitiu que tantos portugueses e dos melhores sofressem mais uns tempos se disso não havia necessidade?
Terão alma estas criaturas? ÀS vezes duvido, e lamentavelmente cada vez duvido mais.

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por guerrilheiro às 22:06



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